É tempo de cuidar

A prática da solidariedade é inerente à vida e aos ensinamentos cristãos como um chamado permanente para olhar as realidades de vulnerabilidade e, principalmente, os necessitados. Não é um olhar de desprezo como o daqueles que passaram pelo caminho e foram indiferentes à dor e sofrimento daquele homem que foi atacado por assaltantes, mas um olhar bondoso e repleto de caridade como o que teve o bom samaritano. “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34).

Estamos diante de uma emergência sanitária global que já afeta mais de 1,4 milhão de pessoas diretamente e já ceifou mais de 80 mil vidas. Nessa grave crise sanitária, que se espalha em uma velocidade acelerada, muitos governos precisaram adotar medidas duras de isolamento social para conter o avanço da pandemia no planeta. No Brasil, do mesmo modo, e por orientação da Organização Mundial da Saúde e Ministério da Saúde, muitas cidades e estados têm decretos em vigor com restrições de movimentação de pessoas, transporte público reduzido, fechamento de comércios, alguns setores da indústria, restaurantes, órgãos públicos, etc. Essas restrições, embora extremamente necessárias para a contenção da pandemia, geram efeitos sociais graves como a demissão de trabalhadores e trabalhadoras ou a diminuição drástica na renda de profissionais autônomos, informais, trabalhadores e trabalhadoras do campo, catadores e catadoras de materiais recicláveis, artesãos e artesãs, etc. É diante deste cenário que a Igreja no Brasil renova sua esperança e amorosidade às pessoas que sofrem as consequências sociais da pandemia e convoca a sociedade brasileira para uma Ação Solidária Emergencial que promova gestos concretos de ajuda às famílias em situação de vulnerabilidade diante da pandemia de Coronavírus.

Sabemos que muitas comunidades, paróquias e dioceses realizam muitos trabalhos de promoção da dignidade humana e também ações de solidariedade com pessoas em situação de vulnerabilidade social há muitos anos. Por isso, a Igreja do Brasil convoca todas as pessoas de bom coração, especialmente, suas comunidades eclesiais, para que se somem às iniciativas já em curso ou promovam novas ações de solidariedade nesse momento tão difícil da vida humana.

Para uma ação de resposta aos impactos e consequências da pandemia de Coronavírus, há três fatores abrangentes que devem ser levados em consideração: Primeiro, as pessoas devem ser vistas como seres humanos, não apenas como casos. Portanto, é fundamental a garantia da dignidade humana. Em segundo lugar, o envolvimento da comunidade é crucial, mas esse envolvimento deve ocorrer de maneira cuidadosa para não expor as pessoas que querem ajudar nem as pessoas que estão precisando de ajuda. E, em terceiro lugar, o enfoque na prevenção da propagação do Coronavírus não deve fazer-nos esquecer as outras necessidades das pessoas afetadas, nem as necessidades médicas de longo prazo da população em geral.

A Ação Solidária Emergencial fornecerá orientações para a continuidade e adaptação das ações em curso e também um grande estímulo aos gestos de generosidade e práticas solidárias que poderão ser organizadas individualmente, em comunidades, paróquias ou dioceses com a finalidade de aliviar os impactos e consequências que afetam populações vulneráveis em todo o país.

Algo muito importante para decidir se é necessário realizar ou não uma Ação Solidária Emergencial diante da pandemia é identificar se há pessoas em situação de extrema vulnerabilidade social que precisam de ajuda emergencial para superar os impactos e consequências da pandemia de coronavírus que assola nosso país. Para isso, algumas indagações prévias são importantes.

Na comunidade, paróquia ou diocese, há famílias que estão sofrendo os impactos e consequências da pandemia?

Essa pergunta é importante porque vai definir o quanto é necessário promover alguma iniciativa solidária. Lembre-se que organizar ação solidária envolve estrutura e logística, mobilização de pessoas para ajudar e tudo isso gera custo e risco de contaminação. Desse modo, a decisão deve ser baseada na necessidade das pessoas e não apenas na nossa vontade de ajudar. A realidade de comunidades vizinhas também pode ser considerada para a definição da realização de uma ação solidária, desde que, articulada com as pessoas da localidade próxima pois já pode haver uma campanha local já em curso que poderá ser potencializada.

A comunidade, paróquia ou diocese têm capacidades para organizar a ação solidária emergencial?

Depois de identificada a necessidade de organização de ação solidária emergencial, é preciso se perguntar sobre as capacidades que a comunidade, paróquia ou diocese têm para promover tais iniciativas. É possível que, se estimuladas, as pessoas procurem as comunidades e paróquias para fazerem doações. Nestes casos, é preciso identificar previamente se há espaços adequados para armazenar e higienizar as doações recebidas. É tão importante também identificar meios para distribuição futura das doações recebidas.

Há pessoas disponíveis para organizar a ação solidária emergencial?

Outro aspecto muito relevante a ser previamente identificado é se a comunidade, paróquia ou diocese têm pessoas motivadas para organizar a recepção, preparação ou distribuição das doações recebidas. Em circunstâncias normais, sabemos que as comunidades e paróquias têm inúmeras equipes que mantêm vivas as ações pastorais e ações solidárias. No entanto, a gravidade da emergência sanitária poderá desestimular a participação em função de riscos de contaminação que podem estar envolvidos.

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